quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Escrevo

Escrevo por escrever
Sem mais motivos para ser.
Mais uma de morrer, desapego,
Somada ao meu desassossego.
Escrevo para não me extinguir
Para revelar minha vontade
De existir
Para solver meu eu faminto
De morrer
Para poder escrever
Para ter o conceito de minha escrita
E conceituar minha vida
Através da morte
E da essência de minha poesia.
Escrevo
Para te permitir
Ter o que eu não te entrego de mim.

Poesia

Ela é minha estratégia de sobrevivência
Ignoro a vida que passa,

Por ela vivo.

Por ela anseio passar os dias
Para ter mais dela.

Sensacionalismo recordista

Nas páginas do noticiário,
Fará parte do obituário
Teu nome escancarado.

Os leitores famintos,
Necrófilos reprimidos,
Procurarão no itinerário
Alguém para contar.

Serás objeto,
De desordem, desprezo
Assunto de botequim.

E alguns dias passados
Tua carne pútrida exalará
A saudade que não deixou.

...
No outro dia o noticiário
Revelará outro infeliz
Motivo de comentário.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Psicopata

A personalidade é travestida,
                                             flexível
                                         vulnerável
Guiada pela vontade de si
A própria indiferença como poder,
Poderio do instinto,
Ora sádica, ora masoquista.
Sempre egoísta.

domingo, 17 de julho de 2011

Lamas do futuro

Queria ver meu futuro branco
Como uma tela
Pronta para ser pintada.

Eu o vejo negro
Com sangue frio escorrendo
Numa poça imensa de desespero.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eu perdi o meu medo da chuva

A chuva parecia garoa
Agora chove aluvião.
Eu nem a via
Achava que tanto chovia
E menos vivia, receava pneumonia!

Depois de tanto tempo temendo a aguaria
Sou pneumática, bronquítica, hipocondríaca...
Pelo menos me arrisco até sem guarda-chuva.

    (de um outro EU, distante.)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Desejo de morrer

(...)
Eu deixo a vida como deixo o tédio 
Do deserto, o poento caminheiro,
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro; 

(...)
Descansem o meu leito solitário 
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida. 

(...)
Álvares de Azevedo

Com a visão perturbada
Percebi um vulto negro
Cruzando a estrada
Roubou-me a vida que eu não mais tinha
Levou embora a memória e a consciência.
Deixou-me nua, com os braços vermelhos.
Sorriu para mim, impiedosa,
Deixando existir apenas o meu passado.